Pulgas

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As pulgas são parasitas cutâneos ou ectoparasitas que apresentam hábitos hematófagos porque se alimentam de sangue. São pequenos insetos, ápteros (sem asas), de coloração que oscila do amarelo ao castanho e corpo comprimido lateralmente, com tamanho variando de 1 a 3 mm; são dotados de aparelhos bucais sugadores.

Apresentam 3 pares de patas sendo que o último par é o mais desenvolvido, permitindo às pulgas prodigiosos saltos, o que facilita sua locomoção de um hospedeiro para outro. Tanto os machos como as fêmeas são hematófagos obrigatórios, sendo que os machos são menores que as fêmeas. São consideradas cosmopolitas, pois se distribui por todo o mundo, adaptando-se bem em qualquer local. 

As pulgas podem viver até por um ano e desenvolvem-se através de metamorfose completa. A cópula das pulgas ocorre após o repasto sanguíneo. As fêmeas colocam de 3 a 18 ovos por vez, entretanto devido às várias cópulas e sucções de sangue, durante toda sua vida chegam a gerar várias centenas de ovos.

Os ovos são brancos e brilhosos sem aderência, sendo depositados em fendas no ambiente ou diretamente sobre o hospedeiro, do qual se soltam e caem. Com a eclosão do ovo, origina-se uma larva ativa e esbranquiçada, a qual é dotada de aparelho bucal mastigador, sendo que o desenvolvimento da larva até a fase adulta é completado antes de iniciar a vida parasitária.

As larvas das pulgas crescem e passam por duas mudas num período de 9 a 200 dias, dependendo da umidade e do calor do meio ambiente. Seu aspecto é de um verme ou de uma lagarta diminuta. Alimenta-se de resíduos orgânicos e de fezes das pulgas adultas contendo sangue parcialmente digerido.

Na terceira muda, a larva tece um casulo de aspecto pegajoso e geralmente coberto de detritos existentes no meio ambiente. Os adultos saem do casulo depois de sete dias ou até um ano, também dependendo das condições do meio ambiente, para depois rompendo o casulo, se transformar numa pulga adulta, a qual irá procurar um novo hospedeiro para alimentar-se.

Existem cerca de 1500 espécies de pulgas, entretanto apenas algumas delas têm importância clínica. Podem ser parasitas de cães, gatos, porcos, seres humanos, roedores, coelhos e aves. Apesar das pulgas terem preferência pelo seu próprio hospedeiro, elas exibem pouca especificidade parasitária, e quando suficientemente famintas, a maioria das espécies ataca qualquer fonte de sangue, isto é, pode haver normalmente uma troca de hospedeiro e todas elas podem atacar indistintamente homens, cães, gatos, ratos, etc. Portanto, na identificação das pulgas deve-se apoiar em seus caracteres morfológicos e não no hospedeiro em que parasita.

A pulga do cão (Ctenocephalides canis) e a pulga do gato (Ctenocephalides felis) provocam uma dermatite pruriginosa nos animais que se tornaram sensibilizados a materiais alérgenos da saliva da pulga, patologia esta denominada de dermatite alérgia por picada de pulgas (DAP). É a desordem cutânea hipersensível mais freqüente em cães e gatos.

 

Ctenocephalides canis

 

Ctenocephalides felis

 

A ocorrência da DAP é sazonal, mais comum nos meses quentes e apresenta como principais sinais cutâneos lesões provocadas pelas picadas das pulgas e pela automutilação causada pelo intenso prurido ou coceira, queda de pelos, regiões de alopecia (falhas na pelagem) e descamações. Estas duas espécies de pulgas servem de hospedeiro intermediário para um cestódeo ou tênia do cão e gato (um verme encontrado no trato digestivo), o Dipylidium caninum e para o Dipetalonema reconditum, um nematódeo filarídeo que parasita os cães. É inútil tratar a parasitose pelo Dipylidium caninum sem combater concomitantemente as pulgas. A presença de Dipylidium caninum no animal pode ser observada pelo aparecimento de proglotes nas fezes, prurido anal e perda de peso.

 

Dipylidium caninum adulto

 

A pulga Ctenocephalides felis ou outro artrópode hematófago podem ser transmissores da hemobartonelose, uma anemia infecciosa felina. Esta doença é causada por um gênero das Ricketsiales, a Hemobartonella felisque ao ser transferida através da picada da pulga de um gato doente para um gato são, provoca uma anemia que pode ser aguda ou crônica, a qual se não for tratada poderá levar o gato à morte.

Considera-se que as formas adultas de Ctenocephalides sp representam apenas 5% do que potencialmente possa representar a população de pulgas num ambiente; 95% representam as formas invisíveis: ovos, larvas e pupas, as quais estão aguardando as condições ideais de temperatura e umidade para se desenvolver e infestar o hospedeiro.

 


Foto gentilmente cedida pela Pfizer – Divisão Saúde Animal

 

É bastante plausível que uma casa habitada por um cão ou gato durante várias semanas tenha pulgas saltando por todos os cantos, ávidas de sangue, de modo que os tornozelos das pessoas que lá adentrem fiquem cheios de pulgas, poucos minutos após terem entrado na casa. As pulgas podem sobreviver por vários meses sem se alimentar, razão pela qual em geral é impraticável expulsá-las completamente do ambiente.

Recomenda-se, portanto, que sempre o principal esforço no controle das pulgas deva ser dirigido para o meio ambiente, através da higiene adequada e o constante e o uso de inseticidas apropriados, principalmente nos local onde o cão ou gato tem o hábito de repousar ou dormir, porque são os locais mais prováveis onde as pulgas irão depositar seus ovos e desenvolver até a fase adulta.

O clima frio também colabora para a eliminação das pulgas, principalmente aquelas que ficam fora da habitação. A batalha contra as pulgas somente será vencida quando for planejado um combate intensivo dentro da habitação, pois é neste ambiente (nas frestas, fendas, piso úmido, construções, etc.) que se desenvolvem os ovos, larvas, pupas e alguns adultos prestes a infestar algum hospedeiro.

Várias são as formas de tratamento para o controle das pulgas no cão e no gato: banhos com produtos pulicidas (produtos que matam as pulgas), o uso de pós-inseticidas apropriados, de coleiras antipulgas, etc. Atualmente está mais difundido o emprego de pulicidas modernos, os quais são sistêmicos, pois além de controlar rapidamente as pulgas adultas, têm um efeito prolongado sobre os ovos, larvas, pupas e adultos, não deixando que se desenvolvam. Seu uso ainda tem total segurança ao animal e ao proprietário, não tendo também restrições aos filhotes, fêmeas em gestação ou amamentando.

Outras pulgas ainda que podem ser citadas como de importância clínica são as seguintes:

Echidnophaga gallinacea, uma pulga que se fixa ao hospedeiro como um carrapato e pula como uma pulga. Pode ser encontrada firmemente fixada em aglomerados sobre a cabeça de frangos e sobre as pálpebras e no conduto auditivo de cães, gatos e outros animais.

 

Echidnophaga gallinacea

 

Tunga penetrans é uma pulga que vulgarmente é conhecida como “bicho de pé”. Vive em lugares secos e arenosos, comumente encontrada em chiqueiros e currais. A fêmea da Tunga, penetra na pele do hospedeiro, que depois de fecundada fica intumescida, devido aos ovos retidos no seu abdômen, atingindo o tamanho de um grão ervilha. As lesões causadas por esta pulga têm o aspecto de um favo de mel, são dolorosas e ficam sujeitas a infecções secundárias.

 

Tunga penetrans

 

Bicho-de-pé

 

Xenopsylla cheopis, uma pulga do rato é a vetora do tifo murino, doença esta causada pela Rickettsia mooseri. A miséria humana, a proliferação de ratos contaminados e a falta de higiene são os principais fatores para a proliferação do tifo murino. Normalmente os animais não apresentam sintomas clínicos, entretanto em humanos o tifo murino provoca dores nas articulações, dor de cabeça muito forte, febre alta, erupções cutâneas, hemorragias.

Finalmente, não pode ser deixado de comentar uma doença de grande importância epidemiológica conhecida como a peste, a qual pode se apresentar sob três formas: a peste septicêmica, a pneumônica e a bubônica.

A peste bubônica ou também conhecida como peste negra tem esta denominação porque provocou um dos momentos mais aterrorizantes da história da humanidade. Durante o século XIV, ela dizimou um quarto da população total da Europa (cerca de 25 milhões de pessoas). Isso, entretanto somente ocorre quando há uma epizootia, ou seja, a presença de um grande número de animais contaminados.

É uma enfermidade de cadeia epidemiológica complexa, pois envolve roedores (ratos domésticos e silvestres, esquilos e coelhos), carnívoros domésticos (cães e gatos) e silvestres (pequenos marsupiais), pulgas e o homem. As pulgas que podem funcionar como transmissoras da peste são: a Xenopsylla cheopis (pulga do rato, esta é a pulga que mais prontamente ataca o homem, quando privada de seu hospedeiro normal), aCtenocephalides canis, a Leptopsylla segnis (pulga do camundongo), as pulgas Polygenis bolhsi jordani e Polygenis tripus (ambas do rato silvestre), aPulex irritans (pulga do homem), dentre outras.

 

Xenopsylla cheopis

 

Pulex irritans, pulga do homem 

A bactéria causadora da peste é a Yersinia pestis, que é transmitida através da picada da pulga infectada. Sabe-se que a forma pneumônica é a mais comum em gatos, sendo associada à febre alta, desidratação e linfoadenomegalia.

 

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