Moscas de Importância Veterinária

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Os artrópodes pretencem ao Filo Arthropoda (vem do grego e significa pés articulados), os quais são animais invertebrados com membros rígidos e articulados. Os artrópodes abrangem o maior grupo de animais existentes na Terra, abrangendo os gafanhotos e moscas (insetos), aranhas e carrapatos (aracnídeos), caranguejos (crustáceos), embuás (diplópodes) e centopéias (quilópodes).

 
As moscas pertencem à ordem Díptera, ordem essa pertencente à classe Insecta, constituindo uma das mais importantes ordens dos artrópodos sob o ponto de vista médico veterinário, porque estes insetos são hospedeiros ou transmissores de inúmeros agentes patogênicos bacterianos, virais, protozoários e helmínticos.
 
Os dípteros distinguem-se dos outros insetos alados por possuir anteriormente um par de asas proeminentes e posteriormente um par de asas reduzido, em formato de pequenas estruturas clavadas, denominados de halteres, os quais têm a função de equilíbrio.
 
 
As miíases e as picadas das moscas propriamente ditas, são considerados efeitos secundários sobre a pele dos animais. Miíase é a deposição de ovos pelas moscas em feridas abertas e posteriormente o desenvolvimento de suas larvas em seu interior.

De uma forma geral, a reação às picadas das moscas é variável de animal para animal, pois se sabe que alguns indivíduos aparentemente são mais atraentes que outros. Outros ainda, além de serem mais atraentes, são mais susceptíveis à reação sistêmica do antígeno, o qual é injetado no momento da picada. Esta reação no hospedeiro tende a aumentar com a repetição das exposições, assim como ocorre com as picadas das abelhas e das pulgas. Ou seja, quanto mais picadas uma animal levar, maior tendência a desenvolver uma reação alérgica.

A lesão primária à picada é chamado de eritema, isto é, rubor da pele, produzido por congestão dos capilares ou pápula (pequena elevação sólida) da pele, circundando um ponto hemorrágico. Esta reação pode ser passageira ou persistir por semanas. Neste último caso costuma desenvolver na região da picada um aumento de volume, com posterior descamação e queda de pelos. 
 

 

 

A seguir, descreveremos algumas espécies de moscas mais importantes sob o ponto de vista médico veterinário.

mosca doméstica comumMusca domestica, a mais conhecida de todos nós, deposita seus ovos sobre fezes de animais ou qualquer outro tipo de matéria orgânica em decomposição. Uma fêmea de mosca doméstica pode depositar cerca de 2000 ovos em um período médio de vida que varia de 6 a 8 semanas. Alimenta-se de fezes, líquidos açucarados, leite, frutas em decomposição e qualquer outro material solúvel.

As moscas se alimentam regurgitando líquidos digestivos sobre a pele suja, pelos molhados, orifícios naturais e ferimentos dos animais (também no homem). Dependendo de onde ela pousou antes para se alimentar, ela pode transmitir pela sua saliva, fezes ou mesmo as patas, vários patógenos tais como bactérias, ovos de helmintos, cistos de protozoários e outros organismos patogênicos trazidos de onde ela se contaminou anteriormente. A mosca doméstica serve, por exemplo, como vetor biológico para nematódeos (Habronema muscae) que parasitam o estômago do cavalo. 

 

Mosca doméstica (Musca domestica)

 

 

Moscas domésticas acasalando 

 

Com relação às moscas produtoras de miíases, muito freqüentes em nossa região (Cotia, Vargem Grande Paulista, Ibiúna, Itapevi, São Roque) temos as famílias CalliphoridaeSarcophagidae e Oestridae.

 
As moscas da família Calliphoridae, também conhecidas mais popularmente como moscas varejeiras, temos como principais representantes os gêneros Cochliomya sp e Chrysomya sp. Suas larvas são muito semelhantes às das moscas domésticas, descritas anteriormente.
 
Algumas espécies tendem a se desenvolver somente na carne deteriorada. Um tipo de mosca varejeira, a Cochliomya macellaria, por exemplo, costuma ser necrófaga, se alimentado basicamente de cadáveres ou carne em putrefação.
 
Outras espécies são tão especializadas que só se desenvolvem na musculatura de animais vivos. Em se falando de moscas, sabe-se que espécies muito próximas entre si diferem consideravelmente no grau de parasitismo e especialização.
 
Uma das mais importantes moscas em nosso meio é a mosca varejeiraCochliomya hominivorax, pois é uma das principais descritas como causadoras das chamadas bicheiras ou miíases e em qualquer local que ocorra, representa uma ameaça séria tanto para o homem como para os animais.
 
 
 
 
Mosca varejeira Cochliomya hominivorax
 
 
 
Há vários casos descritos de vítimas humanas inconscientes de acidentes ou de intoxicação alcoólicas, não socorridas a tempo, que sofreram o ataque dessas moscas provocando até lesões fatais, outras casos com partes de seus corpos completamente comidos pelas larvas.
 
Nos animais as larvas podem invadir aberturas naturais do corpo, originando miíases cavitárias de diversos tipos, nasal, ocular, anal, vaginal, na região do prepúcio nos machos.
 
Ferimentos em animais não cuidados, cirurgias com assepsia precária e não protegidas durante o período de cicatrização, tais como amputações de cauda, castrações, descornas, umbigos de animais recém-nascidos, ferimentos causados por arames farpados, brigas, plantas espinhosas ou lesões de tosquias, alergias a pulgas ou carrapatos, prurido, etc., tudo isso pode atrair este tipo de mosca varejeira, provocando também graves lesões ou mesmo a morte.
 
 
 
 
 
Lesão provocada pela mosca varejeira num cão Poodle
 
 
Quase sempre podemos associar a presença da bicheira com uma negligencia no manejo e tratamento dos animais, quer pela falta de atenção a ferimentos e curativos, quer com relação à falta de higiene nas instalações.
 
 
 
 
Lesão provocada pela mosca varejeira no pavilhão auricular de um felino
 
 
Uma fêmea de Cochliomya hominivorax pode colocar sobre uma ferida até 200 ovos brancos e brilhantes, dispostos em fileiras. Os ovos encubam em um dia e as larvas começam a se alimentar da carne viva e a produzir uma secreção vermelho-acastanhada de odor fétido e característico (quem já sentiu esse odor, não esquece jamais!).As larvas saem para empupar em cinco a sete dias e os adultos emergem em cerca de uma a várias semanas mais tarde.
 
 
 
 
Postura da mosca varejeira Cochliomya hominivorax
 
 
Já o gênero Chrysomya sp compreende o grupo daquelas moscas varejeiras que são comumente encontradas próximas a lixeiras e material em decomposição e também capazes de causar miíases em tecidos em decomposição de animais vivos. Esta espécie de mosca tem, portanto, importância médico-sanitária e veterinária por conviver muito bem nas proximidades do homem e por ser vetora de inúmeras doenças.
 
De uma maneira geral, tratamentos de miíases ou bicheiras variam dependendo do grau de evolução da parasitose, do número de larvas instaladas e da área da região atacada. É sempre aconselhável buscar ajuda de um profissional veterinário de confiança para que se tome a devida providência, quer com relação ao tratamento a ser preconizado, quer com relação às medidas preventivas para se evitar possíveis reincidências.
 
As moscas da família Sarcophagidae ocasionalmente também são descritas como capazes de ampliar lesões ou feridas já existentes em animais enfraquecidos e debilitados, entretanto aparentemente preferem depositar suas larvas em carne em putrefação ou sobre fezes.
 
Com relação à família terceira família citada a família Oestridae temos várias espécies de moscas de interesse médico veterinário, tais como a Gasterophilus sp, cujas larvas parasitam a cavidade oral e estômago dos cavalos, temos a moscaOestrus ovis , cuja larva parasita as vias nasais e seios frontais dos ovinos e aDermatobia hominis, mais conhecida como a mosca do berne, sobre a qual comentaremos mais por ser muito comum aqui na região de Cotia onde atendemos.
No Brasil a mosca Dermatobia hominis encontra-se distribuída em praticamente todos Estados, variando a intensidade de infestação segundo a época do ano, pois é mais freqüente nos meses quentes e úmidos, em locais com abundante vegetação arbustiva e florestas. O termo berne refere-se à larva da moscaDermatobia hominis.
 
 
 
 
Aspecto da mosca do berne a Dermatobia hominis
 
 
 
Além de parasitar animais domésticos de sangue quente, tais como bovinos, búfalos, cabras, eqüinos, cães, gatos, porcos e alguns pássaros, a Dermatobia hominis pode inclusive parasitar também o homem.
 
Sua presença provoca dor e irritação no hospedeiro, sintomas estes causados pelos seus movimentos e ferroadas quando se alimenta na região subcutânea do tecido animal. Além disso, a lesão causada pela mosca do berne na pele dos animais provoca várias outras complicações como infiltração bacteriana e formação de abscessos subcutâneos com a possibilidade de posturas de outras espécies de moscas, tais como a já citada Cochliomya hominivorax, atraída pelas secreções, o que estabeleceria outro tipo de miíase (a bicheira).
 
 
 
 
 
Berne sendo retirado do couro de animal doméstico
 
 
Todos estes sintomas gerados pelas miíases e pela mosca do berne, sintomas de desconforto e sofrimento, obviamente propiciarão vários tipos de prejuízos como atraso no crescimento do animal, queda na resistência orgânica, lesões no couro e pelagem e redução na produção de carne e leite.

Uma peculiaridade interessante da mosca do berne é que ela necessita de outro inseto, geralmente outra mosca para disseminar seus ovos, a qual pousa no animal para se alimentar (como por exemplo pode ser a mosca comum ou a mosca dos estábulos, Stomoxys calcitrans) e funcionando como vetor de seus ovos.

 
 
 
Mosca vetora transportando no seu abdomen ovos da mosca do berne Dermatobia hominis
 
 
 
Esta mosca vetora (intermediária) leva os ovos em ponto de eclodir até o hospedeiro e inicia assim seu ciclo biológico. Estes ovos não eclodem até que a mosca vetora pouse num animal de sangue quente. As larvas penetram ativamente na pele e migram para o tecido subcutâneo desenvolvendo separadamente um abscesso cístico no hospedeiro, aparentando um nódulo avermelhado e com um orifício por onde a larva respira. Através deste poro respiratório a larva sai finalmente para empupar e formar a mosca adulta.
 
A erradicação da mosca Dermatobia hominis é muito difícil em nosso meio, ou até impossível, porque haveria a necessidade de se controlar não somente os hospedeiros domésticos, mas também os silvestres e os vetores.
 
Animais intensamente parasitados de bernes necessitam de cuidados especiais para que se evite complicações futuras. Tentativas não adequadas de extração dos bernes ou a utilização de produtos cáusticos ou larvicidas, que matam as larvas no interior do nódulo, além de machucar o animal com queimaduras, pode também provocar abscessos e fístulas graves, piorando sobremaneira o quadro inicial, demandando posteriormente tratamentos demorados, dispendiosos e até cirúrgicos. A melhor opção neste caso é procurar o auxílio do veterinário de confiança e se informar sobre o melhor procedimento a ser adotado.
 
Outra espécie de mosca a ser comentada é a mosca dos estábulos, a Stomoxys calcitrans. Este é um inseto díptero particularmente adaptado para o ataque à pele do hospedeiro e para a sucção.
 
Sua picada causa extrema irritação no hospedeiro além de muitas enfermidades, pois é dolorosa e a reação da vítima para espantá-la, tende a deslocar a mosca antes que ela tenha ingerido sangue suficiente para sua repleção. Isto resulta em mais e mais picadas, movendo-se entre as picadas para diferentes locais do corpo no mesmo hospedeiro ou ainda para hospedeiros diferentes, favorecendo assim mais a disseminação de doenças.
 
 
 
 
 
Mosca dos estábulos Stomoxys calcitrans
 
 
Nos cães estas moscas provocam aquelas lesões típicas nas pontas das orelhas com a presença de crostas acumuladas de sangue. Os cães agredidos são geralmente aqueles animais que são mantidos fora de casa ou confinados em locais de onde não podem escapar dos ataques das moscas dos estábulos.
 
Além do tratamento dos animais afetados, deverá ser investigada a origem destas moscas nas proximidades, tais como: esterqueiras, criações de animais com manejo precário e falta de higiene, montes de capim cortado ou palha, grãos úmidos. Nestas prováveis áreas de procriação de moscas dos estábulos deverá ser feita aspersão de inseticidas.
 
Os simulídeos, mais conhecidos como borrachudos ou piuns (família Simuliidae) são também dípteros importantes. Estes insetos picadores se alimentam de sangue e provocam severas reações alérgicas no local da picada. Apenas as fêmeas adultas são hematófagas (isto é, alimentam-se de sangue) porque este sangue servirá para o desenvolvimento dos ovos. Atacam mamíferos e aves, sendo que algumas espécies preferem o homem.
 
Nos animais, suas picadas concentram-se em áreas desprovidas de pêlos tais como orelhas, pernas, abdômen e cabeça.
 
Os simulídeos são sazonais, atacando em nuvens, principalmente na primavera e verão e vivem preferencialmente em áreas sombreadas, próximas a córregos, rios e cachoeiras de águas límpidas e cristalinas. São bastante comuns em algumas praias do Estado de São Paulo, onde a natureza está mais intacta.
As lesões provocadas pela picada dos borrachudos consistem de pápulas intensamente pruriginosas, crostas e úlceras, acompanhadas de hemorragia e posterior necrose local.
 
Nos humanos, os borrachudos são descritos como transmissores da oncocercose, conhecida também como “mau do garimpeiro”, doença esta causada por uma filária, a Oncocerca sp, a qual pode levar até levar à cegueira.
 
 
 
Espécie de simulídeo transmissor da oncocercose Simulium damnosum
 
 
Nas galinhas e animais silvestres os borrachudos são descritos como transmissores de uma doença denominada leucocitozoonose (Leucociytozoon sp).
A fumaça e o calor que se desprende das fogueiras dos acampamentos proporcionam certo alívio aos homens e animais domésticos. Entretanto a medida básica de prevenção contra as picadas dos borrachudos consiste no uso de repelentes a base de citronela. Se possível devem ser evitadas as áreas onde se concentram uma grande quantidade de simuídeos, principalmente nas horas de maior ataque (período da manhã e à tarde, com pouco vento).
 
Apenas para comentar outras moscas também de importância veterinária temos as mutucas (família Tabanidae), as quais são várias espécies de moscas grandes e rápidas, de hábitos diurnos, de vôo vigoroso e difícil de afugentar. Sua picada também é dolorosa e freqüentemente a ferida continua a sangrar após a mosca ter ido embora.
 
 
 
 
 
Mosca mutuca
 
 
Assim como no caso da mosca do estábulo, a mutuca pica várias vezes antes de se saciar e alimenta-se de vários hospedeiros ao mesmo tempo, aumentando assim a possibilidade de transmissão de doenças.As mutucas são descritas como transmissoras da bactéria do carbúnculo hemático e do vírus da anemia infecciosa eqüina.
 
 
 Fotos gentilmente cedidas pelo Prof. Dr. Marcelo Campos Pereira 

 
 
 

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