Hepatite Contagiosa Canina

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A hepatite contagiosa canina (HCC), também denominada de hepatite infecciosa canina, foi reconhecida como entidade nosológica viral canina, isto é, classificada como uma doença canina, em 1947. Anteriormente a HCC era classificada como parte de um complexo da cinomose canina. 

É uma enfermidade viral, infecto-contagiosa, aguda, própria de canídeos, que varia desde uma simples hipertermia, congestão de mucosas até severa depressão, convulsões, podendo levar o animal a óbito. Apresenta distribuição mundial e clinicamente a hepatite contagiosa canina pode ser confundida com a parvovirose e a cinomose.

O vírus causador da HCC é um DNA vírus, da família Adenoviridae, gêneroMastadenovírus, sendo reconhecido como adenovírus canino tipo 1 (CAV-1). Segundo alguns pesquisadores, o vírus CAV-1 não é relacionado com o vírus CAV-2 (adenovírus canino tipo 2) responsável pela traqueobronquite infecciosa canina, ou tosse dos canis. Outros afirmam que existe uma relação antigênica entre CAV-1 e CAV-2, que propicia uma imunidade protetora cruzada.

Como outros adenovírus, o CAV-1 é resistente às desinfecções ambientais, podendo sobreviver durante dias a meses no ambiente, dependendo da temperatura e umidade. A infectividade do CAV-1 pode ser destruída pelo aquecimento a uma temperatura de 56ºC e os compostos quaternários de amônia inativam sua infectividade em 10minutos.

Dentre os animais domésticos só o cão é sensível. Como é uma enfermidade muito semelhante à cinomose, uma forma de reconhecer o vírus é que se inoculado no furão, ele não adquire a doença, mas o vírus da cinomose é patogênico para o furão.

A infecção com a HCC independe do sexo ou da raça do cão. Observa-se, entretanto, que a maior parte dos cães se contamina com o vírus da hepatite na fase jovem, até os 6 meses de idade, apesar de não serem incomuns casos em animais adultos. A grande maioria dos cães se infecta, mas não adoece. A mortalidade é baixa, cerca de 10%.

As principais fontes de infecção são a urina, fezes, sangue e saliva de cães enfermos, mas também se pode adquirir a HCC através dos alimentos e água contaminados pelo vírus. Cães que se recuperam da doença podem eliminar o vírus pela urina até por um ano. Observou-se que insetos hematófagos (sugadores de sangue) são transmissores do vírus da HCC. Na fase aguda, o vírus pode ser isolado de todos os tecidos e secreções do animal, mas após umas duas semanas só é encontrado no rim e na urina.

As vias de infecção do CAV-1 são a digestiva e a respiratória. Sofre réplica nas amígdalas e linfonodos regionais e através do ducto torácico passa para a corrente sanguínea estabelecendo a viremia. Do sangue, há rápida disseminação para os tecidos do organismo, secreções como a saliva, urina e também as fezes.

Para que o vírus da HCC se estabeleça com toda sua patogenicidade é necessário que a taxa de anticorpos do cão seja pequena. As lesões celulares que podem ser observadas no fígado, rins e olhos estão associadas aos efeitos citotóxicos desses vírus. 

Cerca de 20% dos cães infectados sofrem sintomas oculares e são acometidos por uma uveíte, podendo levar até a um glaucoma. No fígado, as lesões podem ser muito intensas, caso o nível de anticorpos do cão esteja baixo, provocando uma morte aguda devido à gravidade da hepatite. Nos rins, o vírus da HCC inicialmente provoca necrose dos endotélios dos vasos do glomérulo e depois, ao redor de 10 a 14 dias instala-se nos epitélios tubulares e nos vasos do parênquima, causando uma nefrite intersticial e uma nefrose, estabelecendo-se então a virúria, isto é, a eliminação do vírus pela urina.

O diagnóstico clínico deve ser de suspeita. Cães jovens com hipertermia, temperatura variando entre 39,5ºC a 40º C, depressão, letargia, sede intensa, sem apetite, congestão nasal e conjuntival, fotofobia são sempre suspeitos. Em alguns cães, há dispnéia e tosse por edema pulmonar e pneumonia. Comumente, há também linfoadenopatia (aumento dos linfonodos) da região cervical e edema subcutâneo na cabeça, pescoço e tórax. Verifica-se também uma sensibilidade abdominal, devido à hepatite e esplenomegalia (aumento do baço). Observa-se que alguns cães procuram ficar sentados para diminuir a tensão abdominal que lhes faz doer o fígado.

Cães em que as lesões hepáticas são moderadas costumam se recuperar entre 3 a 5 dias. Quando as lesões no fígado são graves, a morte por hepatite infecciosa canina é súbita e é confundida com envenenamento. Alguns cães podem desenvolver diarréia ou diarréia sanguinolenta, com ou sem vômito. No hemograma de um cão acometido pela HCC, observa-se linfopenia e neutropenia nos estágios iniciais da doença. 

O prognóstico é reservado, muitos cães jovens morrem repentinamente sem a observação de sintomas pelo proprietário e sem que o veterinário seja notificado. Por outro lado, quando o cão é levado ao veterinário, depois de alguns dias da doença instalada, o quadro costuma ser complicado porque as lesões já são graves.

Os cães em sua maioria recuperam-se sem tratamento de apoio. Mas para os que adoecem, o tratamento é sintomático, isto é, os medicamentos utilizados visam melhorar as condições gerais do cão, através de fluidoterapia, energéticos, protetores hepáticos, etc.

A principal forma de se reduzir os riscos da hepatite infecciosa canina é o preventivo através da vacinação dos filhotes com vacinas contendo CAV-1 e CAV-2 atenuados, junto à profilaxia da cinomose. Recomenda-se que cães filhotes sigam o esquema tradicional de vacinação com 3 doses da vacina óctupla ou décupla, com um intervalo de 3 a 4 semanas entre cada vacina. Para os cães adultos, a vacinação deve ser feita anualmente para que fique alto o nível de anticorpos. Nunca é demais salientar que como medida preventiva deve-se sempre procurar um veterinário para receber orientações sobre a vacinação adequada dos cães.

É bom relembrarmos ainda que um cão doente curado poderá liberar vírus da HCC até por um ano, portanto este animal não pode conviver com outros cães não vacinados nesse período. Por isso muito cuidado com um cão sem histórico, presenteado ou encontrado na rua, que é colocado junto com os nossos cães, os quais não possuam as vacinas atualizadas. Recomenda-se, neste caso, que nossos cães sejam vacinados pelo menos 15 dias antes daquele animal chegar.


Fontes:   Enfermidades infecciosas dos Mamíferos Domésticos – Walter Maurício Corrêa e Célia Maurício Corrêa
                Tratado de Medicina Veterinária – Stephen J. Ettinger

 

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