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A febre maculosa ou também conhecida como febre maculosa das montanhas rochosas é uma enfermidade infecciosa amplamente distribuída no Hemisfério Ocidental, que afeta inúmeros vertebrados: cães, cavalos, bois, coelhos e também animais silvestres: capivaras, antas, gambás, raposas, roedores diversos, os quais são responsáveis pela perpetuação de microorganismos suficientes na natureza, para que o ciclo se mantenha. Inclusive o homem pode também ser acometido por esta perigosa doença, sendo por isso considerada uma zoonose.

O agente etiológico causador da febre maculosa é um microorganismo bacteriforme denominado Rickettsia ricktsii, que se adaptou ao parasitismo das células reticuloendoteliais e endoteliais dos vasos sanguíneos dos hospedeiros intermediários.

A transmissão da Rickettsia ricktsii se dá principalmente pela picada de carrapatos infectados (veja mais sobre carrapatos em nosso site), sendo por esta razão de grande interesse para os veterinários. Já se demostrou também que, além da picada, fezes e tecidos de carrapatos infectados que tenham sido esmagados podem difundir a infecção através da conjuntiva ou de micro-lesões cutâneas.

O vetor envolvido na transmissão da febre maculosa no Brasil é o carrapato-estrela, Amblyomma cajennense, espécie nativa do Brasil e muito comum nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, podendo parasitar qualquer mamífero e mudar de hospedeiro em qualquer fase de sua evolução.

Este carrapato é bastante comum nos pastos e o que mais problemas causa ao ser humano. Convém lembrar que o conhecido micuim ou carrapato-pólvora é a larva do carrapato-estrela e pode ser diferenciado do adulto por apresentar 3 pares de patas (a forma adulta dos carrapatos apresenta 4 pares de patas, aliás como todo aracnídeo).

 


Fêmea do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense) no hospedeiro, repleta de ovos

 

O ciclo de vida do carrapato-estrela é por volta de um ano. No período das águas, de outubro a março, as fêmeas adultas fecundadas caem no solo e cada uma delas põe cerca de 7 mil ovos que, ao eclodirem, darão origem aos micuins. É muito comum se observarem nos pastos, entre abril e julho, verdadeiros bolos de micuins sobre arbustos, à espera de um hospedeiro. Quando um animal doméstico: cavalo, boi, cão ou mesmo um animal silvestre ou até o homem esbarram no local, as larvas aproveitam para se instalar.

Depois que os micuins se alimentaram do sangue do hospedeiro, caem novamente ao solo e sofrem uma muda transformando-se em ninfas. As ninfas do carrapato-estrela são os chamados vermelhinhos e ocorrem de julho a novembro podendo também parasitar o ser humano.

Os vermelhinhos são maiores e mais visíveis que os micuins, os quais também procuram um hospedeiro. Com suas ninfas, acontece o mesmo que com os micuins, ou seja, após se alimentarem do sangue do hospedeiro, caem ao chão e sofrem outra muda, chegando finalmente à forma adulta, que são os carrapato-estrelas propriamente ditos, isso acontece entre outubro e março.

A forma adulta desses carrapatos pode viver até dois anos no solo sem se alimentar, à espera do hospedeiro. Nessa fase, raramente infesta o homem. A cópula do carrapato-estrela ocorre quando está fixado e se alimentando no animal. Em seguida, as fêmeas, repleta de sangue e de ovos caem no solo para desovar, concluindo assim o ciclo de vida da espécie.

Verificou-se que em qualquer fase do ciclo vital do carrapato-estrela, isto é, forma adulta, micuim, vermelhinho, ninfa, ele pode transmitir a febre maculosa e a patologia se dá enquanto este carrapato infectado se fixa na pele e se alimenta do sangue do hospedeiro durante pelo menos 4 a 6 horas. Constatou-se, além disso, que os carrapatos infectados têm a possibilidade de transmitir a Rickettsia ricktsii a sua descendência através dos seus ovos.

Ao sugar o sangue de um cão (ou de outro animal, inclusive do homem) o carrapato infectado promove a disseminação da Rickettsia rickettsii, a qual invadindo as células endoteliais e reticuloendoteliais dos pequenos vasos sanguíneos, causam aumento da permeabilidade vascular e necrose das células endoteliais, através de produtos do seu metabolismo e de substâncias que têm ações semelhantes às das endotoxinas (substâncias tóxicas encontradas nas bactérias).

Esta vasodilatação e colapso da circulação periférica provocam extravasamento sanguíneo para os tecidos (sufusão), acúmulo de eletrólitos extracelulares, retenção da água renal, edema, depressão cardiorespiratória, sintomas neurológicos, estado de choque e morte, freqüentemente na primeira semana da infecção.

Nos cães os sintomas e sinais mais importantes observados são: vômitos, depressão, febre, inapetência, pontos hemorragicos e sufusões na pele, diarréia (sanguinolenta ou não), aumento dos linfonodos, perda de peso e desidratação. Animais severamente afetados podem apresentar hematúria (urina com sangue). Todos estes sinais e sintomas podem ser mais ou menos intensos e estar presentes juntos ou somente alguns deles.

Na fase aguda da febre maculosa é difícil de diferenciá-la da erliquiose aguda. Devem ser utilizados métodos laboratoriais para diferenciá-las. Animais com tosse, respiração difícil, febre, diarréia, com ou sem sintomas neurológicos devem ser muito bem avaliados, pois a febre maculosa pode também ser confundida com acinomose.

O prognóstico (isto é, a previsão provável da evolução e desfecho da doença) da febre maculosa é bom desde que o diagnóstico seja feito rapidamente para que o tratamento seja o mais imediato possível, tratamento este através do uso de antibióticos e medicação de suporte.

Já no homem, os principais sintomas incluem febre repentina, intensas dores de cabeça, fortes dores musculares, mal-estar geral, náuseas, vômitos e, com menor frequência, dores de barriga e tosse. A maior parte das pessoas doentes desenvolve erupções na pele dos braços e das pernas, que podem espalhar-se para outras partes do corpo. Os sintomas da doença começam a surgir no homem entre 2 a 14 dias após a picada do carrapato e complicações gravíssimas, por vezes até fatais podem ocorrer se não a doença não for tratada logo no início.

Frequentemente a febre maculosa é destaque na grande mídia pelos inúmeros focos que surgem no nosso país. Há alguns anos atrás, por exemplo, tivemos alguns casos comprovados de febre maculosa em Piracicaba, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Outros casos comprovados também ocorreram em Itaipava, município próximo ao Rio de Janeiro e na zona sul da cidade de São Paulo, no bairro do Jabaquara. Alguns desses casos tiveram inclusive evolução fatal. São necessárias condições climáticas adequadas como alta umidade e temperaturas quentes para aumentar a população dos vetores (carrapatos) e com isso aumenta também a possibilidade da incidência da febre maculosa. 

Como ainda não existe vacina para a febre maculosa, várias medidas preventivas devem ser utilizadas para que sejam reduzidas as possibilidades de contaminação, principalmente em regiões onde a incidência de carrapatos é grande, como por exemplo, na região onde fazemos atendimentos clínicos, Cotia e municípios circunvizinhos. 

Dentre as medidas que podem ser adotadas, cabe ao veterinário informar e orientar os seguintes cuidados na prevenção dessa importante zoonose:

– Examine diariamente seus animais e utilize produtos carrapaticidas preventivos. Se já foram observados carrapatos, o emprego do carrapaticida deve ser imediato. Hoje em dia existem no mercado ótimos produtos que controlam carrapatos e de outros ectoparasitas (veja mais em nosso site artigos sobremoscas, mosquitos e pulgas). Para que o controle seja eficaz, além do carrapaticida usado nos animais, é muito importante se fazer também o controle dos carrapatos do meio ambiente. Contate conosco para maiores informações e orientações ou consulte um veterinário de sua confiança;

– Examine seus filhos e a si mesmo quanto a presença de carrapatos;

– Evite caminhar em áreas infestadas por carrapatos;

– Use calças compridas dentro das botas quando estiver em áreas silvestres e se possível prefira as roupas claras, para facilitar a visualização dos carrapatos;

– Não manipule os carrapatos e nem os esmague com as mãos desprotegidas. Se necessitar removê-los utilize pinças e uma vez removido utilize uma solução anti-séptica no local;

– Se alguém apresentar algum sinal ou sintoma sugestivo da febre maculosa procure um médico o mais rápido possível.

 

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