Conheça as Aranhas Perigosas

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Quase nove décimos de todos os animais que atualmente povoam a Terra pertencem a um grupo zoológico (Phylum) denominado de Arthropoda. Chamam-se artrópodes estes seres articulados que apresentam suas pernas e extremidades bucais compostas por diversas peças que formam verdadeiros artículos móveis. Outra característica dos artrópodes é a de possuírem uma carapaça de quitina dura e rígida, formando um esqueleto externo protetor chamado de exoesqueleto.

Os artrópodes compreendem as seguintes Classes: Arachnida, Crustacea, Onycophora e Insecta. A classe dos aracnídeos (Arachnida) abrange dez Ordens, sendo que as de maior importância médico-veterinária são a dos escorpiões (Scorpiones), a das aranhas (Araneida) e dos carrapatos e ácaros (Acarina).

A
 Ordem Araneida compreende as aranhas, as quais como característica principal, todas elas apresentam quatro pares de pernas. Formam um grupo de maior evidência pelo elevadíssimo número de espécimes que apresentam, pelo enorme poder de adaptação às variações do ambiente e principalmente porque algumas aranhas podem picar e inocular um veneno perigoso nos animais e nos seres humanos.
As aranhas são tão férteis e chegam a produzir tantos ovos durante suas vidas que se todos sobrevivessem e se reproduzissem, dentro de poucos anos teríamos camadas de aranhas de alguns metros a sepultar toda superfície terrestre.
 
Grande parte das aranhas passa por nós despercebida porque são extremamente minúsculas atingindo apenas 1 a 2 mm de comprimento e vivendo praticamente enterradas durante toda a vida entre as raízes das plantas, alimentando-se de pequenas brocas, larvas e nematóides daninhos, prejudiciais à agricultura.
 
Outras aranhas, já bem maiores – as caranguejeiras, podem ter o tamanho da palma da mão humana, alimentam-se de lagartixas, filhotes de pássaros em seus ninhos, camundongos sem pelos, pequenas cobras, porque apresentam fileiras de dentes agudos sob os ferrões, capazes de transformar os pequenos ossinhos, músculos e tendões da presa em uma fina papa possível de ser engolida.
Existem aranhas nas regiões gélidas subpolares de ambos os hemisférios, nos climas subtropicais, climas quentes, desertos, florestas, plantações, aranhas “enterradas”, terrícolas, nas flores, nos arbustos, nos pântanos, cavernícolas, errantes, “domésticas” (os famosos papa-moscas). Algumas delas são adaptadas à vida sub-aquática e outras até marinhas. Pode-se dizer que as aranhas apenas ainda não conseguiram “criar asas”, muito embora algumas caranguejeiras da Amazônia conseguem se lançar ao ar de alturas consideráveis das copas das grandes árvores onde vivem e “planam” suavemente para o solo. Apesar de grandes seus corpos são extremamente leves e “projetados” para este fim.
Entretanto, como tudo na Natureza tem controle, a população das aranhas é mantida dentro de limites toleráveis através da luta pela sobrevivência e muitos animais naturalmente dependem delas para se alimentar. As aranhas servem de alimentos para várias espécies de pássaros, mamíferos, insetos, anfíbios, répteis e mesmo entre as próprias aranhas ocorre intenso canibalismo, isto é, aranhas que se alimentam de outras aranhas.

Pode-se afirmar que todas as aranhas são carnívoras, preferindo caçar a sua presa viva, segurando-a com as garras da extremidade de suas pernas, encravando nela as duas pinças veneníferas , matá-la e comê-la em seguida. O veneno da aranha além da capacidade de matar a presa, contém enzimas digestivas, as quais dissolvem o conteúdo da vítima, bastando depois sugá-la.
 
Há dois principais métodos principais das aranhas se apoderarem da presa. O primeiro método se baseia naquelas aranhas que caçam quando pressentem sua vítima valendo-se de sua acuidade visual e agilidade no salto. Estas aranhas não constróem teias para caçar, são errantes e costumam andar sozinhas. O segundo método compreende as aranhas que constróem teias através de glândulas especiais localizadas em seus abdomens, glândulas estas denominadas de fiandeiras. Estas teias são colocadas em locais estratégicos onde passam os insetos alados ou obstruindo a correnteza de vento.
 
A título de curiosidade o fio de seda produzido pelas fiandeiras das aranhas consiste de centenas de fios individuais e mede quando visível a olho nu, cerca de 0,01cm de espessura. Antes de ser rompido, cede aproximadamente 20% de seu comprimento e é cerca de 80 vezes mais resistente do que um fio de aço de mesma espessura!
Se levarmos em consideração que existem trilhões de aranhas sobre a Terra, todas predadoras e carnívoras, a destruírem bilhões e bilhões de insetos nocivos às nossas plantações e colheitas, poderemos imaginar que sem a colaboração delas, grande parte das colheitas seriam destruídas. Além disso, devemos acrescentar que as aranhas também colaboram com a Saúde Pública, eliminando uma infinidade de insetos perniciosos, tais como: insetos hematófagos, ou sugadores de sangue e insetos hospedeiros e transmissores de doenças, prevenindo assim muitas epidemias.
 
Apesar das aranhas poderem jejuar durante meses, também têm a capacidade de devorar de uma vez só o equivalente ao seu próprio peso, distendendo o abdômen. Imagine só quantas moscas e mosquitos as aranhas podem comer diariamente, sabendo-se que aproveitam somente o líquido interno das vítimas! Convém salientar que até hoje não se conhece nenhuma doença que fosse transmitida por aranhas.

Portanto, por mais estranho que possa nos parecer, podemos concluir que na realidade todos nós estamos rodeados por aranhas, por todos os lados. Isso exige forçosamente que façamos urgentemente uma revisão do que nos foi ensinado a respeito delas, pois as aranhas são extremamente úteis aos fazendeiros, sitiantes e a todo aquele que mora na periferia da cidade e que tenha um jardim ou quintal.
Cabe também a nós orientarmos e esclarecermos que dentre a imensa maioria de aranhas úteis e desejáveis, há infelizmente algumas bastante venenosas e que realmente podem picar se molestadas. Destas aranhas venenosas que iremos tratar agora, obviamente sem a pretensão de se falar tudo a respeito delas, vamos procurar elucidar algumas dúvidas e sobre a possível ameaça que elas possam representar.
 
É oportuno que antes de comentarmos sobre as principais aranhas venenosas, que façamos um breve comentário com relação aos acidentes causados por picadas de aranhas em animais domésticos em nosso atendimento clínico cotidiano. Picadas de aranhas em animais domésticos de maneira geral são menos freqüentes do que os acidentes em humanos. Isso ocorre principalmente devido a maior espessura da pele e também devido à proteção que os pelos proporcionam ao animal.
 
Os casos de animais picados por aranhas são aqueles casos em que freqüentemente o proprietário chega ao atendimento clínico relatando que o cão ou o gato foi surpreendido por alguma dor lancinante, durante a qual o animal gritou de dor e fugiu sem nem atender ao chamado do dono. É bastante raro que o dono do animal consiga trazer à clínica a aranha em questão, para que seja identificada. Geralmente a aranha pica e foge rapidamente, daí a importância de fazermos uma cuidadosa anamnese, isto é, aquelas informações obtidas do proprietário sobre a situação atual do paciente.
Algumas horas após a picada e, portanto, à inoculação da peçonha da aranha no animal, quando se examina a região afetada, poderemos perceber que a mesma encontra-se edemaciada, muito sensível, vermelha e inflamada. Dependendo da gravidade do caso, o animal poderá apresentar febre, inapetência. Além disso, quando melhorar a dor e os sintomas da fase aguda, o animal poderá apresentar na região da picada uma maior ou menor área de necrose (morte celular), dependendo do tipo da aranha e da quantidade de veneno inoculado no tecido.
 
O prognóstico, isto é, predição da provável evolução e desfecho de uma moléstia, de animais picados por aranhas está sempre relacionado com o tipo de peçonha, a quantidade de veneno inoculado e com o porte do animal picado, pois animais menores, com menor massa corpórea, têm uma maior tendência de apresentar maiores complicações. Felizmente, em nossa observação prática, os casos de óbitos de animais que vivem em nossa região são bastante raros.
Depois de termos abordado todos estes aspectos importantes sobre aranhas em geral, faremos breves comentários sobre as principais aranhas realmente perigosas para o homem e animais. Dentre elas temos as tarântulas, as armadeiras, as aranhas marrons e as viúvas-negras.
 
 
ARANHAS TARÂNTULAS
 


Aranha tarântula (Lycosa erythrognatha) num recipiente de vidro.
 
 
Da família Lycosidae, encontramos com o nome de Lycosa milhares de espécies de aranhas em todo o mundo e dentre elas existem cerca de 300 subfamílias na América do Sul e mais de 120 no Brasil. As fêmeas são bem mais encorpadas do que os machos e podem atingir até uns 8 cm de tamanho, incluindo as pernas.
Como característica das fêmeas das licosas observamos o costume que apresentam em carregar na extremidade do abdômen uma esfera cheia de ovos denominada de ooteca.
São popularmente conhecidas como tarântulas e a razão deste nome se dá ao fato de haver muitas superstições e histórias inverossímeis a seu respeito. Conta-se que na Idade Média, na cidade de Taranto, existia uma tarântula tão venenosa que quando picava, provocava nas pessoas acidentadas uma agitação nervosa com movimentos involuntários, crises dolorosas e risos histéricos. Dançavam então freneticamente até ficarem banhadas de suor e caírem de cansaço. Após a recuperação muitas vezes nem se lembravam do que havia acontecido. Daí nasceu a famosa tarantela, música de origem italiana, frenética, violenta e muito ritmada, uma dança que lembra alguém que apresentando com muita dor.
As licosas são aranhas bastante astutas e extrovertidas. Não constroem teias, sãoi ótimas caçadoras e muito ágeis, podendo trepar em todos lugares menos em superfícies muito lisas, como azulejos, por exemplo. São extremamente comuns aqui na região de Cotia e proximidades e não há quem tenha um jardim, sítio ou fazenda que já não a tenha visto, pois é encontrada em todo lugar, debaixo de qualquer telha.

Os acidentes entre os humanos são muito comuns e quase todos benignos. Apesar da dor e da inflamação, costuma se verificar pouca destruição de pele e tecidos no local da picada. Além disso, as licosas quando descobertas quase sempre se acovardam e procuram fugir rapidamente.
 
 
ARANHAS ARMADEIRAS
 


Aranha armadeira (Phoneutria sp) em posição de ataque. Foto tirada em Caucaia do Alto (Cotia)
 
 
Uma aranha já bem mais perigosa, feroz e também relativamente comum entre nós é a aranha conhecida como “armadeira” (Phoneutria sp), sendo portanto bastante importante conhecermos.
A aranha armadeira tem este nome porque quando se sente ameaçada, costuma se armar erguendo os dois pares de pernas dianteiros. Ela observa então atentamente os movimentos de seu inimigo, balançando o seu corpo e quando sente que já está bem próxima, ataca com um rápido e espetacular salto sobre a vítima encravando seus pontiagudos ferrões.
 
É, portanto, a aranha que mais acidentes provoca nas pessoas e animais. A maioria destes acidentes ocorre no interior das casas, quintais, jardins, garagens, quando se removem móveis, principalmente nas casas de fins-de-semana, por onde as armadeiras penetram por baixo das portas. Precisamos ter muito cuidado ao se calçar sapatos porque as armadeiras costumam procurar lugares escuros, evitando a luz diurna direta.
 
As armadeiras são crepusculares e noturnas e seus oito olhos dispostos em três fileiras lhes garante uma excelente visão no escuro. Seu corpo atinge por volta de oito a nove centímetros incluindo as pernas, são exclusivamente sul-americanas. As encontradas no exterior provavelmente foram “exportadas” principalmente em cachos de bananas, onde são conhecidas pelos trabalhadores europeus e americanos principalmente em galpões de maturação de frutas tropicais como “banana-spider”.
A dor da picada é rápida e muito dolorosa. Dependendo da quantidade de veneno injetado e do tamanho da vítima poderemos ter sintomas mais graves como comprometimento do sistema nervoso central, febre, distúrbios cardíacos e respiratórios, deficiência visual, vertigens e em alguns casos mais graves evoluir até a morte, principalmente em crianças.
 
 
ARANHAS-MARRONS
 
 
 
Aranha marron (Loxosceles similis)
 
 
Uma outra aranha bastante importante de ser mencionada é conhecida como “aranha-marron” (Loxosceles sp). Trata-se de uma das aranhas mais perigosas, pois possui uma das peçonhas animais mais ativas atualmente conhecidas sobre o organismo humano.
Apesar de suas dimensões diminutas, não excedem os 23mm incluindo as pernas, seus ferrões são fortes e apresentam somente apenas três décimos de milímetro. Parece até incrível que esta pequena aranha consiga picar e perfurar a pele humana. Freqüentemente quando alguém é picado por essa aranha, tem-se a impressão que “algo picou, mas nem se sabe o que foi”.
A quantidade de veneno que esta pequena aranha possui é muito pequena. Entretanto, o “loxocelismo”, quadro de intoxicação da pessoa que foi picada pela aranha-marron, pode ser considerado como um dos mais perigosos envenenamentos e um dos mais difíceis de serem tratados em humanos, porque geralmente o médico é consultado tardiamente. A sensação inicial após a picada é a de um mal-estar, nervosismo e elevação da temperatura corpórea. Posteriormente a pessoa picada poderá apresentar náuseas, vômitos, dores de cabeça e até lesões renais graves com hemorragia. Também nos pulmões poderemos ter alterações como presença de edemas e hemorragias.

O
 indivíduo picado pela aranha-marron poderá apresentar basicamente dois quadros clínicos: uma forma cutânea (mancha escura e posteriormente gangrenosa no local da picada), forma esta mais benigna e outra forma bem mais grave, a cutâneo-visceral. Na verdade, sempre quando alguém é picado pela aranha-marron não se sabe qual será a evolução da doença. Em alguns casos persiste somente a reação local, com reação inflamatória, gangrenosa ou necrótica (cutânea). Nos casos mais graves teremos um comprometimento dos parênquimas hepático e renal. O sinal que evidencia a gravidade do caso é a redução ou ausência de micção e a urina com coloração amarronzada. 
A aranha-marron constrói uma pequena teia irregular com cerca de uns 5 a 8cm nos cantos escuros com poucos fios entrelaçados com o centro mais adensado. Vive em adegas, quartos de despejo, garagens, dormitórios, atrás de quadros, roupas em cabides. É comum casos de acidentes humanos quando a pessoa veste uma roupa (ou mesmo roupa de cama), as quais foram secas próximas à pilhas de madeiras, tijolos, em cima de poços e acidentalmente a aranha-marron pode ser levada junto com a roupa.

Felizmente a aranha-marron é uma aranha muito tímida e pacífica e nunca se coloca em posição de defesa. Pica apenas quando acidentalmente é apertada e espremida sobre nossa pele. Se acidentalmente entrar em contato com nossas mãos, rostos, braços, etc., prefere correr sobre o corpo e fugir sem nunca oferecer ameaça, podendo até ser morta ou apreendida facilmente. Quando molestada permanece completamente imóvel e até quando sua teia é destruída prefere fugir amedrontada, procurando rapidamente lugar escuro para se proteger. Uma prova disso é que a aranha-marron vive em grande número ao redor do homem e animais e apesar de seu perigoso veneno, casos de acidentes são considerados muito raros, a não ser em ocasiões excepcionais.
 
Em caso de acidentes com a aranha marron, muito comum na região de Cotia, e pelo fato de conhecermos pessoas que foram hospitalizadas após sua picada, recomendamos que qualquer dúvida procure o Instituto Butantan para maiores informações e esclarecimentos.
 
 
 
ARANHAS CARANGUEJEIRAS
 


Eupalaestrus sp 
 
 
Detalhe do tamanho de uma aranha caranguejeira
 
 
As aranhas caranguejeiras são as que apresentam os maiores representantes do grupo das aranhas, existindo somente no Brasil cerca de 300 espécies. Alguns indivíduos vivem na região amazônica e são consideradas as maiores aranhas conhecidas, pois chegam a ter 50g de peso e uma extensão entre as pernas de até 20cm (pertencem aos gêneros Xenethis e Theraphosa).
As caranguejeiras Avicularias também da Amazônia, são aquelas já mencionadas, grandes, mas muito leves, parecendo leques e que podem “planar” no ar, quando querem saltar do alto das árvores ao solo.
No sul do Brasil temos algumas aranhas caranguejeiras muito mansas que quando em cativeiro podem até ser manejadas com as mãos desprotegidas e não picam. São também espécies grandes e pertencem principalmente ao grupo das Grammostola mollicoma, pretas e aveludadas. Temos também as Eupalaestrus sp encontradas nas margens do Rio Paraná, as Pamphobeteus platyoma encontradas no estado de São Paulo, todas elas consideradas relativamente mansas. Outras já são muito agressivas (Acanthoscurria atrox, A. juruenicola e A. Rondoniensis), vivem principalmente na região central do Brasil e picam facilmente, porém apesar da ferocidade e do temor que provocam nas pessoas devido à sua aparência, seu veneno tem pouca ação no organismo humano, sendo sua picada semelhante à de uma abelha.

Do Nordeste ao Rio de Janeiro existe uma caranguejeira curiosa, a Lasiodora klugi, a qual quando molestada e não pode fugir, vira sua região posterior contra o inimigo e esfrega rapidamente o dorso do abdômen bombardeando o inimigo com uma nuvem de finos pelinhos urticantes, os quais em contato com os olhos ou narinas são extremamente irritantes.
Aqui em São Paulo encontramos principalmente dois gêneros de caranguejeiras Pamphobeteus e Acanthoscurria, com cerca de 8 espécies. São relativamente inofensivas e sempre fogem, mas se tomadas na mão podem picar. Costumam provocar pânico e alvoroço quando vistas em quintais e jardins públicos.
Embora as caranguejeiras tenham uma má fama por sua aparência e tamanho, podemos acreditar que quase sempre são inofensivas. Porém, nem todas as caranguejeiras do mundo são inofensivas, pois na África e Austrália encontramos caranguejeiras muito temidas devido ao seu poderoso veneno, podendo ser comparado ao das armadeiras ou da ao da viúva-negra.

 

As caranguejeiras são noturnas ou crepusculares. Vivem praticamente isoladas e são intrépidas caçadoras. Tecem teias somente quando precisam. Podem ser consideradas úteis ao homem pois combatem outras aranhas perigosas, tais como as armadeiras, as tarântulas e até escorpiões. Vivem bem em cativeiro, desde que haja muita higiene e fornecimento de água adequado. 
 
Tivemos a experiência de criar em cativeiro, aqui na Policlínica, uma caranguejeira que foi apreendida na região de Ibiúna e que provevelmente morreu de velhice com mais de 15 anos de idade. Nunca ficou mansa, sempre agressiva e alimentava-se de insetos grandes. Chamava-se Raimunda.
 
 
ARANHAS VIÚVAS-NEGRAS
 

Lactrodectus curacaviensis
 
 
À título de completarmos o assunto sobre as principais aranhas perigosas, faremos um breve comentário sobre uma aranha conhecida como viúva-negra (gênero Lactrodectus sp).
Deixamos justamente para o fim este assunto pois nunca tivemos casos de animais acidentados com este tipo de aranha aqui na região de Cotia. Entretanto, é também uma aranha importante de ser citada, pois como se trata de uma das aranhas mais perigosas e discutidas há séculos, com centenas de publicações médicas e científicas a respeito.
Todos anos, o número de vítimas humanas picadas pela aranha viúva-negra no mundo atinge a cifra de milhares de indivíduos, com dezenas de casos mortais se não tratados. Além dos acidentes descritos em humanos, em vários países (Argentina, Chile, Peru, Uruguai, Estados Unidos, Europa, Austrália, etc.) temos também casos descritos de animais de grande porte picados pela viúva-negra, tais como bovinos, camelos, cavalos, etc., muitos dos quais evoluem também para a morte.
As viúvas-negras são habitualmente consideradas aranhas de campo. Parece, entretanto, que segue o homem em suas atividades culturais, perto das fazendas e algumas delas até trocando as condições ambientais naturais por alpendres, garagens, silos, etc.
 
O problema da viúva-negra é que onde costuma aparecer uma destas aranhas, freqüentemente podem existir centenas. Imagine a gravidade da situação se a encontrarmos em plantações, pastagens, locais estes onde existem muitas pessoas trabalhando ou mesmo criação de animais!
 

A viúva-negra é uma pequena aranha, com cerca de 1cm de comprimento, corpo todo preto e abdômen volumoso, esférico, preto com uma mancha vermelha. São aranhas tímidas, sedentárias, constroem teias de aspecto desordenado em três dimensões com refúgio mais denso, onde coloca seus ovos (ootecas). Em locais onde existem muitas viúvas-negras, cada uma ocupa cerca de um metro quadrado, espaço este muito respeitado pela vizinhas, pois um confronto sempre redundará numa luta de morte.
 
Apenas os machos indefesos conseguem muito cuidadosamente ter acesso às teias das fêmeas para timidamente se alimentar das sobras de suas refeições. Após o acasalamento os machos perdem seus genitais provocando sua morte, daí a razão do nome de “viúva”, pois antes se pensava que a fêmea matava o macho após a cópula.
No Brasil foram descritas três espécies desta temível aranha, a L. geometricus encontrada em praticamente todo o Brasil, felizmente esta espécie pouco perigosa. Temos a L. mactans encontrada em Mato Grosso, considerada muito perigosa e a L. curacaviensis, também perigosa e encontrada numa extensa faixa litorânea desde Pernambuco até o Rio de Janeiro.

Os sintomas causados pela picada da viúva-negra são semelhantes ao descrito no mundo inteiro, variando apenas na intensidade do veneno. No local da picada praticamente não se observa alteração alguma. Mas depois é comum aparecer sintomas de febre, dores violentas nos órgãos internos e articulações. Posteriormente poderá haver queda da temperatura, calafrios, cãibras, os dedos das mãos e dos pés se recurvam, suores, palpitações cardíacas, um terrível mal-estar que, se não tratado, poderá provocar a morte.
O tratamento se baseia principalmente em soros antilatrodectus, antiálgicos, calmantes e tônicos cardíacos. Acredita-se que o veneno das viúvas-negras deva conter componentes tóxicos diferentes dos da aranha armadeira, dos escorpiões e das cobras corais e cascavéis. As toxinas atuam no sistema nervoso central, periférico e musculatura lisa que reveste os principais órgãos do corpo.
É imprescindível, portanto, que nos países onde se encontra frequentemente este tipo de aranha, que se tenha à disposição soros específicos (antilatrodectus) porque atualmente se sabe através das estatísticas que cerca de três por cento das vítimas, se não tratadas, sucumbem quando picadas pela viúva-negra.
Apesar de estarmos cientes que o mundo possua seres assim potencialmente perigosos, cumpre que conheçamos o problema e saibamos como tratá-lo. Nada justifica destruição do meio ambiente porque todos nós de certa forma construímos o mundo em que vivemos durante nossas vidas.
 
A responsabilidade é toda nossa se em nossa existência nos comportarmos de uma maneira inadequada e que torne insatisfatória a qualidade de vida no planeta. Não podemos nos esquecer de que de nós seres humanos vivemos com todos os outros seres vivos neste planeta e com eles compartilhamos o processo vital.
 
 
 

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