Assine nossa Newsletter


A febre aftosa é uma doença altamente contagiosa, de evolução aguda, que afeta naturalmente os animais biungulados, isto é, aqueles que possuem o casco fendido, domésticos e selvagens. Nas espécies domésticas estão incluídos: bovinos, bubalinos, suínos, caprinos, ovinos. Nas espécies selvagens que possuem cascos fendidos temos: javalis, bisões, camelos, antílopes, veados, por exemplo, que também podem ser acometidos pela doença.Entre as espécies não biunguladas, foi demostrada susceptibilidade nos elefantes, capivaras, ratão-do-banhado e vários outros roedores.

A febre aftosa é considerada uma zoonose (doença que os animais transmitem aos homens), pois a espécie humana pode ser infectada, embora raramente.

Apesar de ter sido descrita pela primeira vez em 1546 e dos esforços para o controle e erradicação, a febre aftosa continua sendo alvo de pesquisa e preocupação pelos especialistas porque envolve estreita relação entre a saúde pública, o ambiente e o bem estar sócio-econômico. Representa uma importante ameaça para o bem estar da economia nacional de diversos países, porque o mercado exterior exige confiabilidade dos alimentos de origem animal, os quais devem estar isentos desta enfermidade.

Nos anos de 2000, 2001, a febre aftosa voltou às manchetes dos jornais de todos continentes, com imagens chocantes de rebanhos inteiros sendo sacrificados. No Brasil a febre aftosa é um fator limitante para o desenvolvimento econômico da indústria animal. 

O Brasil enfrentou em  outubro de 2005 uma crise da aftosa em Mato Grosso do Sul, cujo impacto de longo prazo acabou na época ficando imprevisível, pois segundo a Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), perdeu-se somente nos 3 últimos meses do ano de 2005 perto de US$ 300 milhões em exportações de carne bovina “in natura”. E nos meses seguintes a média diária das exportações encolheu em pelo menos 50%. Portanto a aftosa representa um grande problema para o Brasil, porque mesmo depois de controlada a situação, a reputação internacional fica abalada durante anos.

A enfermidade é enzoótica (doença que acomete os animais em uma região limitada) na América do Sul, África, Europa, Japão, Filipinas. A Austrália e Nova Zelândia nunca tiveram experiência com a doença e os E.U.A. não tiveram nenhum surto desde 1929. E graças à erradicação da febre aftosa do México em 1954, a América do Norte é considerada área livre da doença.

O vírus da febre aftosa pertence à família Picornaviridae, gênero aphtovirus. São conhecidos 7 sorotipos antigênica e imunologicamente diferentes: O, A, C, SAT 1, SAT 2, SAT 3 e Ásia 1, os quais são distintos e não permitem proteção cruzada eficaz. No Brasil foram identificados 3 tipos: A, O e C.

Este vírus pode sofrer mutações indefinidas originando numerosos subtipos e centenas de cepas diferentes, com variações dramáticas no grau de virulência (capacidade do agente provocar a doença), levando a sérias dificuldades de imunização durante os programas de vacinação e a conseqüente falha de imunidade nas vacinas empregadas.

Esta é uma das razões do aparecimento dos surtos de febre aftosa, motivo pelo qual se impõem as chamadas barreiras sanitárias, a fim de se evitar que o vírus seja trazido junto com os animais, produtos e subprodutos de origem animal de uma região para outra dentro de um País ou fora dele.

O vírus da febre aftosa é instável em pH ácido (menor que 6) e alcalino (maior que 9) e sensível aos desinfetantes químicos como carbonato de sódio 4%, formol 10%, hidróxido de sódio 2% e meios físicos como calor, radiação ultravioleta, ionização por raios gama e luz solar. É insensível ao frio podendo persistir nas pastagens por muito tempo em baixas temperaturas.

Nos casos típicos de bovinos de campo, a febre aftosa provoca febre, inapetência e uma estomatite aguda e dolorosa. As vesículas e bolhas de 1 a 2 cm de diâmetro aparecem na mucosa oral, gengiva e língua, as quais se rompem em 24hs, deixando uma superfície exposta e dolorosa, que cicatrizam por volta de uma semana.

Aftosa: salivação intensa devido à dificuldade de deglutição

Vesículas e úlceras na mucosa oral

Estas vesículas podem aparecer também nos cascos, nas junções das unhas e coroa do casco. As vesículas podem também ocorrer nas tetas, orifícios das tetas, causando mastite, aborto e infertilidade. A debilidade e queda na produção de leite ocorrem durante o período agudo da doença e a alimentação retorna ao animal 2 a 3 dias após a cicatrização das lesões, porém o período de convalescença pode durar até 6 meses. Bezerros são mais susceptíveis do que os adultos e uma alta mortalidade pode ocorrer sem apresentar as lesões típicas da virose.

Aftosa produzindo lesões nas tetas

Vesículas nos cascos e espaços interdigitais

A aftosa é disseminada tanto pela inalação quanto pela ingestão e pode permanecer na forma de aerossol durante muito tempo. A direção e velocidade do vento podem determinar o índice de disseminação do vírus. Em condições favoráveis, o vírus pode ser levado a distâncias de até 60Km. Utensílios como camas, cochos, arreios, pneus, vestuários, material usado na alimentação e o couro podem permanecer como fonte de infecção por longos períodos.

O animal infectado elimina o vírus por todas secreções: saliva, sêmen, leite, urina e fezes, contaminando o meio ambiente. Os títulos mais altos do vírus se encontram no líquido das vesículas e no epitélio das lesões. Na fase da ruptura das vesículas é a de maior disseminação do vírus, muito embora sua persistência na pele e pelos de alguns animais poderá propiciar que sejam responsáveis por novos surtos. O carrapato (veja nossa matéria sobre Carrapatos) também pode servir como portador e disseminador da virose.

Os produtos derivados de animais também podem estar contaminados e de acordo com o processamento podem ser considerados de maior ou menor riscos de infecção. Por exemplo, carne “in natura” com gânglios, órgãos, medula óssea, sangue são de alto risco, assim como o leite não tratado e subprodutos como manteiga. A febre aftosa pertence ao chamado grupo das doenças vesiculares, no qual estão incluídas:

         – A estomatite vesicular, doença infecciosa viral que provoca vesículas na boca e nos cascos principalmente dos eqüinos, mas também ocorre nos bovinos e suínos;
         – A doença vesicular dos suínos, também de origem viral, que embora seus efeitos econômicos sejam moderados, sua importância está em provocar sintomas semelhantes aos da febre aftosa;
         – Exantema vesicular dos suínos, também causada por vírus e que clinicamente não se distingue da febre aftosa, da estomatite vesicular e da doença vesicular dos suínos, por isso também tem importância.

Portanto, todas estas doenças têm em comum a propriedade de formação de vesículas típicas com coloração esbranquiçada contendo um líquido incolor ou ligeiramente sanguinolento, sendo seu diagnóstico baseado nos sintomas clínicos, nos dados epidemiológicos e no diagnóstico laboratorial.

Além dos bovinos, outras espécies de interesse econômico, tais como ovinos, caprinos e búfalos, o diagnóstico é bem mais difícil devido à discreta intensidade das lesões. Inclusive, são freqüentes os casos de animais doentes destas espécies que não demonstram sintomatologia clínica, mesmo estando em contato íntimo com bovinos doentes. Esta é uma das grandes causas da persistência do vírus em muitas regiões e uma das principais responsáveis pelas variações antigênicas de cepas de campos durante surtos.

Nenhum tratamento é recomendado para animais com aftosa, apenas tratamentos sintomáticos através de desinfecções brandas nas áreas inflamadas para que seja prevenidas infecções bacterianas.

Os métodos de controle da febre aftosa em uma determinada área dependem de muitos fatores, o que mais comumente se faz é o controle por erradicação, pela vacinação ou pela combinação destes dois métodos. O método de controle por erradicação consiste em se eliminar, após o diagnóstico, todos animais de casco fendido do grupo exposto o mais cedo possível e imediatamente após devem ser enterrados ou queimados. Este método resulta em perdas enormes para a indústria animal e é utilizado apenas onde a incidência da febre aftosa é baixa. É economicamente impraticável em muitos países.

A vacinação contra aftosa é indicada onde a doença é enzoótica e em locais onde o risco de ser introduzida é muito grande. É de consenso geral, portanto que a vacinação de toda uma população é necessária quando a erradicação é incapaz de prevenir a disseminação da doença, apesar de uma série de desvantagens que as vacinas podem apresentar, como por exemplo: vacinação contra os diferentes sorotipos 3 vezes ao ano; porcas prenhes vacinadas apresentam reação local grave com altos índices de abortos e nascimento de natimortos; infecções inaparentes podem surgir em animais em que a susceptibilidade foi reduzida pela vacinação, sendo que atualmente se reconhece que exista um número maior do que se pensava de animais portadores produzidos pela vacinação.

É também importante de se salientar que freqüentemente comete-se o grave erro no controle da febre aftosa, tanto com relação aos programas de erradicação quanto aos de prevenção, em que se tem sensação de que não há mais motivos para preocupações com a reincidência da doença. Com isso ocorre um relaxamento gradativo das medidas de vigilância sanitária e um desmantelamento das estruturas de atenção veterinária proporcionando assim a possibilidade de sua reintrodução através de animais, produtos e subprodutos de origem animal.

Em humanos, a febre aftosa é de ocorrência rara e o homem é considerado um hospedeiro acidental. Mesmo com freqüentes oportunidades de exposição ao agente no campo, o homem raramente adoece. A transmissão ocorre por contato com animais enfermos ou material infeccioso através de pequenas lesões e arranhões por onde o vírus penetra, ou pela ingestão de leite não pasteurizado. Ainda não foi comprovada a contaminação humana através da ingestão de carnes ou subprodutos cárneos.

A infecção no homem pode provocar sintomas clínicos ou ser assintomática. Pode provocar dor de cabeça, febre, falta de apetite. Podem ou não aparecer vesículas e aftas na boca pés e mãos, com possível contaminação bacteriana secundária. A aftosa, clinicamente se assemelha com várias doenças vesiculares, sendo, portanto difícil de se chegar a um diagnóstico sem a confirmação laboratorial. Portanto, o papel dos humanos é mais importante na transmissão mecânica do vírus aos animais pelas mãos contaminadas, vestimentas e calçados, uma vez que o vírus pode viver durante algum tempo no meio ambiente.

A prevenção da entrada da febre aftosa em áreas livres de contaminação e seu controle tornam-se cada vez mais difíceis em virtude da modernização de meios de comunicação. Seria ínfima a importância da aftosa se não a considerássemos sob o ponto de vista social e econômico. Sua presença afeta produtores, famílias rurais, empresários devido ao impacto que provoca na produtividade e rentabilidade pecuária. Incide negativamente nas atividades comerciais do setor agropecuário, na disponibilidade e distribuição de alimentos de origem animal, na interferência das barreiras sanitárias impostas pelo mercado. Onera inclusive os custos públicos e privados pelos investimentos necessários para sua prevenção, controle e erradicação.

Deixe uma resposta